terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Amar

Amar, que coisa tão estranha! – diz ela enquanto rebenta bolhas num daqueles plásticos protectores de “coisas sensíveis”, depois de ter feito “mais uma viagem a cuba”.
Ali está ela, sentada na sua cozinha, a contemplar não sabe muito bem o quê. Sente-se menina, hoje. Sente-se pequenina. Já não sabe o que é amar e isso faz-lhe confusão. Perdeu a definição de amar deixando o seu sentimento andar à deriva. O barco não vinha com remos. Só mesmo o barco, num rio, a seguir a força da água.
Bebe mais um pouco do seu leite quente com chocolate e contempla o vazio, ao som de Sigur Rós. “Talvez a melancolia da música me ajude a entrar no mundo dos sentimentos”
Ou talvez seja simplesmente porque o silêncio faz-lhe confusão e a música reconforta-a. Talvez…
Passa uma música. Passa outra. E ela continua simplesmente a “viajar”. Não quer pensar no que é amar. Quer sentir o que é amar!


(imagem:Carla de Oliveira)

1 comentário:

Patricia disse...

Expectativas que nos ludibriam os sentidos. Ha muito, muito tempo atras eu esperava, expectante, sentir o amor que escrevem nos livros. Intenso, incondicional, unico, inteiro, de voz grossa e consistencia constante. Daqueles que sentimos para sempre mesmo que no livro nao venha a dizer... Descobri que esse amor para ser humano tem de ser falhado nas pontas, com buracos de uso e cheiro a roupa suja. As vezes lava-se e cheira melhorzito, as vezes certos angulos mostram uma peca unica e remenda-se aqui, cose-se alem, arranja-se uma cobertura nova e assim, mas e' nas falhas, buracos e cheiros que nos vivemos. As vezes veem os filtros que melhoram tudo, "concertam" tudo mas e' apenas isso, efemero e temporario. Eu ca gosto de amar os buraquitos do uso, as pontas falhadas da porcelana e de lavar a roupa suja. Faz-me sentir viva aqui e agora, sem planos de melhoria (que isto de querer mudar os outros e' nao aceitar os outros), sempre com uma costurita para fazer, sempre com um remendito para aplicar. E assim vivo quente, cheia de afazeres de agora e nao de ontem ou de amanha. Assim encho-me deste amor por mim e pelos que estao comigo naquele momento, os que ficam por aqui e os que passam por ali. Os que tambem veem os meus buraquitos e remendos ou os que acham que eu sou uma supermulher. A todos a consistencia do que sou e do que sinto serve de alimento e assim, mesmo que me encontre comigo apenas, estou cheia deste amor vivido sem expectativas, de olhos nos remendos e nas falhas. As vezes doloroso, muitas vezes de no' na garganta, mas sempre cheio de vida e de sangue, visceras e fezes. Porque tudo isso faz parte de ser humano.
E' armar de binoculos ou lupa e deitar fora as expectativas. Elas sao das ma's que so' nos querem desiludir. Humanos nao faltam por ai !!!

Beijinhos grandes, leio-te com deleite.